Infelizmente, desde o dia 11 de Setembro, muitas bobagens foram escritas no Brasil e no Mundo sobre esse assunto. Inclusive por gente considerada "intelectual". Morando nos states, nao muito longe de NY, e vendo essa bagunca toda, os unicos textos coerentes que consegui encontrar (NA MINHA OPINIAO) na imprensa brasileira foram as de Alberto Dines e Dora Kramer, alem de uma entrevista com um professor de politica brasileiro (apesar do tom tendencioso da introducao e do entrevistador). Seguem abaixo reproducoes tiradas do JB:
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''O terrorista não pensa globalmente''
Se não justificam atentados terroristas como os da terça-feira, os desmandos globais da potência americana no mundo e suas terríveis conseqüências para populações inteiras tampouco servem muito para explicá-los. É o que pensa Alfredo Valladão, professor de Relações Internacionais no Instituto de Estudo Políticos de Paris (Sciences Po), onde é diretor da cátedra Mercosul. Em conversa por telefone de São Paulo, onde esteve esta semana, Valladão diz que o megaatentado tem raízes no conflito entre palestinos e israelenses e na falta de disposição do novo governo americano de dar continuidade às pressões regionais do
anterior. Vivendo há muitos anos na Europa, ele sopesa todos os lados de um problema para fugir do maniqueísmo que enxerga na indignação dos que, sem justificar o terror, consideram que a superpotência
corteja o ódio.
- Ao lado do horror ante os crimes cometidos terça-feira em Nova Iorque e Washington, há também, em setores da opinião mundial, o sentimento de que um ódio e uma deliberação de vingança dessa dimensão
podem ter explicações na dimensão proporcional dos males infligidos pela potência americana a muitos povos há muito tempo: guerras ''cirúrgicas'' ou não com mortes em massa de civis, no Vietnam ou no Iraque,
a miséria alimentada pelas políticas globais capitaneadas pelos interesses do capitalismo americano...
- Não concordo com esta análise. Primeiro, achar que a globalização é imposta pelos Estados Unidos é um erro. É preciso fazer a diferença entre a globalização de fato, que comporta processos financeiros, tecnológicos, e uma ideologia da globalização que alguns setores não só nos Estadodos Unidos mas no mundo inteiro adotam. O processo da globalização não vem só pelos EUA, mas pela Europa, o Japão e até pelo Brasil. Há pequenos grupos extremistas que acham que os EUA o estão impondo, o que não é verdade; eles participam, como os outros, e estão sendo globalizados como os outros. Dentro dos EUA há muitos setores contrários à globalização. Em segundo lugar, não acredito que se deva ver aí um aumento do ódio geral contra os Estados Unidos. Acho perigoso apresentar esses atentados neste quadro, pois seria uma maneira de também criminalizar o movimento antiglobalização. A maioria das pessoas que se manifestaram em Gênova estão horrorizadas com esses atentados.
- Mas não há o menor risco de confundir manifestantes com terroristas...
- Quero ver se na próxima manifestação que houver do tipo Gênova sair um pessoal gritando ''Viva o atentado!'', não sei o que pode acontecer... O que sei é que a incerteza está angustiando muita gente, e pesa
sobre todos os movimentos e países democráticos.
- O senhor disse antes desta conversa que considera os atentados de terça-feira mais ligados ao contexto do Oriente Médio. O que estou querendo dizer é que, pela dimensão nova, parecem refletir com maior ferocidade a vontade de ''fazer os Estados Unidos pagarem'' pelo que fazem globalmente.
- Não concordo. Acho que o que houve está muito mais conectado ao que acontece no Oriente Médio do que a eventuais abusos contidos na globalização, por uma razão simples: isto aconteceu nos Estados Unidos não por causa da presença americana, mas por causa da ausência americana. O que aconteceu no Oriente Médio depois da chegada do Bush ao poder? Sempre houve violência nessa região, mas quem impedia que ela chegasse ao extremo eram os Estados Unidos, com panos quentes e pressões sobre os palestinos e Israel. Bush, sempre apoiando Israel, não quis mais se meter entre os dois adversários. Que aconteceu? A violência local dos dois lados foi a extremos que nunca tinha alcançado, violência sem limites éticos nem militares: quando um F-16 atira num edifício civil, é uma escalada sem limites; quando um sujeito põe granadas na cintura e vai para uma pizzaria matar, é também uma escalada sem limites.
- Mas as principais suspeitas não recaem sobre os extremismos diretamentre ligados à questão palestina.
- Não sei quem cometeu os atentados, mas não acredito que tenha sido um pequeno grupo palestino. Uma ação deste porte necessita uma estrutura extraordinária, provavelmente com ajuda de um Estado. Mas por causa do ódio acumulado no Oriente Médio - ódio que faz com que parte da opinião árabe ache que os responsáveis são os Estados Unidos, por apoiarem Israel - já existe há muito tempo esta vontade de fazer os Estados Unidos pagarem por suas posições na região. Não é de hoje que o Bin Laden está cometendo atentados contra os EUA, e ele representa uma rede muito grande, com apoio de vários Estados ou setores desses Estados. Mas o que aconteceu em Nova Iorque e Washington está muito mais próximo do ódio local e da escalada da violência para limites extremos por causa da ausência dos EUA na
região. O que está na cabeça dos fanáticos e terroristas não são grandes análises globais. Simplesmente eles acham que o inimigo principal é a grande potência, pois é ela que garante o mínimo de
estabilidade que eles querem destruir. O fanático faz um raciocínio local e conclui: o meu inimigo local são os Estados Unidos.
- Um terrorista não tem certos reflexos de um militante pacífico contrário aos rumos absurdos da globalização? Por exemplo: as políticas globais adotadas em grande parte por interesse americano matam
de fome indiretamente milhões de pessoas; a potência americana há pelo menos meio século impõe ao mundo formas inomináveis de violência e não quer nem saber...
- Não aceito esse tipo de paralelo, pois a violência que existe no mundo, a fome, etc., não vem só das grandes potências. Por exemplo: a questão da África não é só culpa do ''colonialismo'', do ''imperialismo'', mas também dos dirigentes africanos, das tribos locais. Além disso, existem nos Estados Unidos movimentos importantes que ''querem saber sim senhor'' e têm muita influência no governo, inclusive os que querem defender os privilégios dos trabalhadores americanos contra as reivindicações dos países mais pobres. Nesse mundo de globalização é bobagem dizer que há de um lado os grupos terroristas odiosos e de outro a superpotência que faz qualquer negócio. Isto é uma caricatura, o mundo não funciona assim, e se começarmos a analisar as coisas dessa maneira vamos para a guerra sem fim, pois a única solução seria mais atentados e retaliações cada vez piores. É o que está acontecendo no Oriente Médio. Sem os americanos a Europa hoje seria nazista ou vítima do totalitarismo comunista. Nos momentos-chave da
história mundial em que estava em jogo o totalitarismo de um lado e a liberdade de outro, os americanos sempre estiveram do lado bom e liderando o combate.Também cometeram barbaridades, como no Vietnam, mas não se pode dizer que tudo que os Estados Unidos fizeram no mundo são coisas negativas.
- Que tipo de reação aos atentados o senhor observou?
- Constato a angústia que o mundo teve com esses ataques, e a entendo de duas maneiras. Primeiro, o medo da retaliação americana, o tipo de processo que isto pode acarretar. A segunda, mais profunda, é que
as pessoas sabem que hoje os Estados Unidos são os únicos capazes de garantir uma certa ordem no mundo, boa ou ruim. Se os Estados Unidos se mostram vulneráveis, todo mundo fica na incerteza e com medo:
se isto pode acontecer com os Estados Unidos, por que não na Europa, por que não no Brasil, por que não em qualquer outro lugar do mundo? Os europeus hoje estão angustiadíssimos, pois estão na primeira linha, muito próximos do Oriente Médio...
- Mas o terrorismo nesta nova escala, já chamado hiperterrorismo, seria imaginável contra um país europeu? Não parece tipicamente antiamericano?.
- Todos nos lembramos das bombas que mataram dezenas e dezenas de pessoas no metrô de Paris nos anos 80. Os Estados Unidos, como primeira potência do mundo, são o alvo sonhado de todo fanático. Mas não vamos esquecer a seita Verdade Suprema no Japão com produtos químicos no metrô, a ETA na Europa...
- Haveria risco de descontrole num novo processo de ataques e retaliações?
- Não, de descontrole não há nenhum risco. Acho que tudo vai depender da investigação. Uma operação com este grau de sofisticação tem que ter um mínimo de apoio de um Estado ou de setores de um Estado. Se por acaso o autor foi o Bin Laden, mesmo se o Afeganistão não contribuiu com dinheiro ou passaportes ou uma estrutura, ele está lá, pode fazer o que quer e montar essa operação. Há portanto a luta contra os grupos terroristas e uma outra contra os Estados que os apóiam. Minha impressão é de que depois desse atentado não há mais terceiras vias nesses assuntos: quem mostrar qualquer tipo de compreensão com relação a terrorismo será considerado, com razão, um inimigo dos Estados Unidos e de todos os países democráticos.
- E dá para prever possíveis conseqüências econômicas?
- Não tenho bola de cristal. Acho que o grande impacto será político, pois desde a queda do Muro de Berlim estávanos todos com a idéia de que mal ou bem o mundo ia se integrar economicamente, as divergências seriam tratadas por negociação, pouco a pouco seriam resolvidos os problemas de anomia. Mas a idéia de uma guerra geral saía do horizonte. Com estes atentados a coisa muda, entramos de novo num mundo onde vai haver o bem e o mal, onde voltaremos a ter um inimigo, que se chamará terrorismo e será um divisor de águas. Neste sentido os Estados Unidos vão exigir de novo solidariedade total dos aliados e amigos. Só que o terrorismo não é um país, não é como a União Soviética. Como se combate o terrorismo? Com inteligência, serviços secretos. Os americanos pedirão aos aliados uma colaboração muito mais forte, uma
integração dos serviços de inteligência sob a sua liderança, o que pode criar certos problemas. Por exemplo: a Europa nos últimos dez anos está discutindo a sua autonomia e uma identidade de defesa dentro da
Otan. Provavelmente durante certo tempo, possivelmente alguns anos, a questão será deixada de lado.
- Haveria um deslocamento da defesa militar tradicional para as ações de inteligência?
- O militar tradicional continuará existindo, pois sempre haverá a possibilidade de Estados ajudarem as redes terroristas. Não estou entre os que acreditam que os americanos vão abandonar o projeto de escudo
antimísseis. Pelo contrário, vão dizer: ''Estão vendo? Se um Estado tivesse um foguete atômico seria pior.'' O que acho é que vão investir muitos recursos na criação de uma rede antiterrorista mundial na qual os
aliados serão chamados a participar inteiramente.
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A culpa é das vítimas (por ALBERTO DINES)
Hora da gramática, inclusive para baixar a pressão. O simplismo político que antecedeu a Terça Negra parece que não foi interrompido depois da carnificina. Está intacto e ileso, fumegando ressentimentos, pronto para
inflamar iras sagradas e santas indignações. De forma cabal, a maioria das lideranças árabes ou islâmicas solidarizaram-se com as famílias das vítimas ou com o povo americano. Sem atenuações ou justificativas. Foram tão feridas pelo terrorismo como os assassinados. Fidel Castro, tão agredido pela arrogância norte-americana há tanto tempo, também foi inequívoco na solidariedade. Disse o que sentia, ponto final.
Mas na retórica da nossa decantada sociedade cordial, eivada de vírgulas e desvios, foi inserido como recurso atenuante uma pequena partícula usualmente destinada a ligar partes da frase. Disfarçada como
pausa entre duas idéias, tem função deletéria, desagregadora. Sem ao menos sensibilizar-se pela morte de tantos brasileiros, alguns dos breves e formais lamentos pela catástrofe foram seguidos de um
perturbador e insultuoso porém.
Na inocente conjunção revela-se o vulcão de rancor ainda não sossegado, atalhado ou purgado pela sangueira da semana passada. Aqui entra a gramática para lembrar coisas para as quais não atentamos ao
usar o idioma. Conjunções servem para juntar orações: quando aditivas funcionam como reforço - caso do teimoso e - quando adversativas estabelecem o contraste entre os respectivos sentidos. Se alguém
apresenta condolências e, logo em seguida, acrescenta algum contudo, todavia ou porém está na realidade dizendo ''meus pêsames'' negando-o logo depois com um ''bem feito''.
O ''show'' político apresentado pelo PT na televisão nesta quinta-feira foi perfeito em todos os sentidos, Inclusive na menção aos atentados terroristas: nem mas nem meio mas. O repúdio à violência foi breve, claro,
e o pesar, sincero. Mas o PT é um partido que se prepara para exercer o poder, tem condições de extirpar emoções, escolher palavras que as expressem e, sobretudo, evitar as armadilhas do fraseado. Tem
condições, sobretudo, de imunizar-se contra o veneno das ambigüidades do discurso.
Esta consternação não foi compartilhada pela maioria dos militantes ou associados que desfilaram pelas páginas dos jornais fumegando raivas e cólera, claramente satisfeitos com o ajuste de contas exibido
de forma tão espetacular pela TV.
Rapidamente lastimados, os seis mil desaparecidos - inclusive os 17 brasileiros - foram rapidamente comparados aos mortos em Hiroshima, Nagasaki, Dresden, Hanói, Chile e aos quais se acrescentaram as massas de famintos da África e as legiões de miseráveis na América Latina. Balançando entre a justificativa e o justiçamento, com a decisiva ajuda dos poréns, a cruel aritmética vindicativa ilustra um relativismo moral do
qual certas esquerdas - ou pseudo-esquerdas - ainda não conseguiram livrar-se. E tão cedo não se livrarão enquanto continuarem intoxicadas pelo dogma de que os fins podem justificar os meios.
Deste atordoamento espiritual não escapam figuras consagradas nos certames internacionais: premiados com o Nobel da Paz e da Literatura, catedráticos e luminares em todas as ciências e saberes, racionalistas e estetas, marxistas e aristocratas. Historiadores treinados para olhar a humanidade com a perspectiva dos séculos e jornalistas habituados a interpretar imediatamente seus espasmos, entregaram-se ao amok desencadeado pelo terror. Até banqueiros tão cautelosos nas emoções e aplicações tiraram dos armários os estandartes de cruzados.
Incapazes de se horrorizar ou entregar-se à dor, portanto incapazes de se humanizar pelo sofrimento e pela solidariedade, os fogosos arautos do ''estamos quites'' estão detonando todas as pontes que conduzem
ao diálogo e à tolerância. A xenofobia que só agora descobriram já pulsava há muito nos seus pronunciamentos totalizantes e totalitários, na forma de dividir o mundo entre os que merecem compaixão e os
que merecem a paixão condenatória.
George W. Bush é a pessoa menos indicada para conduzir os EUA neste momento. Disso não há menor dúvida: todas as suas manifestações (a começar pelo discurso numa escola na Flórida na manhã dos atentados e terminando dez dias depois no discurso ao Congresso em Washington) escancaram o despreparo, o vazio intelectual e uma psique que só sabe manifestar-se através de lugares-comuns.
A inconfortável constatação não pode nos conduzir a um alinhamento com o fanatismo, o terrorismo ou com estas cínicas invocações destinadas a minimizar, desculpar ou justificar a barbárie cometida na Terça Negra.
Nas avaliações ora em curso está sendo esquecido um dado elementar: os atentados não foram acompanhados de manifestos, ultimatos, condições ou exigências. A ausência de proclamações ou autoria indica uma guerra indiscriminada contra todos, contra a humanidade. Os mandantes do crime não são de esquerda, sequer progressistas. Também não são agentes do capitalismo selvagem ou revolucionários, reformistas, ecologistas, terceiromundistas ou anti-globalização. Não querem um Estado forte ou mínimo. Não querem Estados, leis, códigos, normas de convivência ou respeito. Além de matar indiscriminadamente estão empenhados em semear ódios, acender fogueiras, exacerbar suspeitas, inflamar vinganças, cercear qualquer possibilidade de entendimento, aproximação ou tolerância.
Ao manifestar um pesar com meia boca ou da boca para a fora, os lúcidos comentadores com suas conjunções adversativas e seu relativismo moral estão apenas avalizando a violência como linguagem política.
Nas realidade, estão condenando as vítimas como as únicas culpadas pelo que aconteceu.
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A intolerância dos bem-pensantes (por Dora Kramer)
Agora que a guerra vai começar, aumentará bem a conta a ser paga pelos Estados Unidos nas bocas e mentes dos bem-pensantes que consideram o antiamericanismo argumento indispensável à boa formulação de suas análises. Sendo a vítima rica, poderosa e dona de currículo com máculas do passado, aplica-se a ela a norma rodriguiana pela qual sabe porque apanha e, portanto, merece a agressão. Tal pensamento é, no conteúdo, igual àquele, segundo o qual aos atentados de 11 de setembro deve corresponder a extinção do mundo árabe. Um se manifesta em desabrida truculência, enquanto o outro se disfarça num suposto equilíbrio em que a condenação do terrorismo se faz acompanhar de manifestações de intolerância, não apenas aos governos e ao país em geral, mas também ao modo de ser de cada cidadão norte-americano em particular.
Como se 6.000 pessoas mortas, a alma de uma nação massacrada e a ameaça ao mundo inteiro - incluindo aí também o Oriente - fosse nada diante do antiamericanismo irracional, quase obrigatório ao
exercício de certa rebeldia sem causa, sempre à caça de uma dicotomia na qual possa se alistar. Ainda que do alto do usufruto de todas as facilidades do mundo moderno e a léguas de distância daquele outro mundo de povos cujas crenças e sofrimentos são instrumentalizados por redes de destruição que não incluem a negociação diplomática em seu cardápio de atuação.
Em magistral artigo publicado no Estado de S. Paulo no fim de semana, Bryan Appleyard, do inglês Sunday Times, examina a questão nominando os autores da gratuita execração aos Estados Unidos - neste momento, uma postura no mínimo de mau gosto - de ''as classes dos tagarelas''.
Appleyard relaciona inúmeras benfeitorias dos Estados Unidos à Humanidade, entre elas a salvação da Europa da barbárie de duas guerras mundiais e a reconstrução do continente após a última delas, mas aqui vale a pena reproduzir um trecho em que o jornalista busca detectar as origens dessa confusão mental que, a se perpetrar sem freios, caminha célere para transformar em vítima o agressor.
Escreve Bryan Appleyard: ''Com o fim dos confrontos da guerra fria, os movimentos anticapitalismo e antiglobalização abandonaram as ansiedades potencialmente racionais, culturais e ambientais em
favor de um monstruoso pacote aleatório de execração antiamericana. E, é claro, o Oriente Médio parecia fornecer um caso claro de superpotência arrogante e valentona perseguindo os pobres.''
E aí, o jornalista entra na subjetividade simples e precisa que pauta a deselegância intolerante dos bem-pensantes: ''A idéia do valentão encaixa-se claramente numa das mais grotescamente duradouras de
todas as crenças antiamericanas: que eles são todos ianques burros, o que é um desvario tanto da direita quanto da esquerda.'' Ele lembra grandes expressões da cultura (música, cinema, literatura) mundial nascidas
nos Estados Unidos e aponta que há pelo menos 30 universidades americanas às quais as européias ''teriam de lutar muito para se equiparar''.
Apesar disso, continua, ''a idéia era que os Estados Unidos eram um grande e desajeitado trapalhão e nós (europeus), os grandes e refinadíssimos pensadores''. Segundo esse pensamento, destrinchado por Appleyard, ''os tagarelas'' consideram os americanos ingênuos e, por isso, por sua triste inocência, fazem coisas terríveis. Podemos concluir com um trecho do artigo que não finaliza o texto, mas resume bastante bem a simplificação do ódio à América por parte daqueles que nenhuma razão objetiva - complexo de inferioridade é subjetivo - tem para tal: ''As razões disso são óbvias. Queremos que o valentão seja bronco pela mesmo razão que queremos que a bela modelo seja bronca. Não podemos suportar a possibilidade de alguém ter força ou beleza e também cérebro.''